"dentro de mim é revolução"



Perguntei para algumas mulheres da minha vida, um tempo atrás, de todas as idades, cidades e realidades diferentes, quais foram as pequenas revoluções cotidianas que promoveram em suas vidas e transformei tudo em texto, que por si só, é prosa poética das mais lindas, visto que preenchido de realidades escolhidas e resistência diária, para existir desejante em uma sociedade na qual conhecemos a opressão desde o útero materno. 

O resultado foi esse texto lindo, feito do ordinário, que em verdade, é onde faz morada o que se faz de mais extraordinário, que compartilho agora com cês, porque é boniteza demais pra ficar escondido. 

Também é um convite para que celebremos as pequenas conquistas corajosas que nos aproximam da nossa autenticidade todos os dias. As revoluções existem, persistem e transformam.

Grata a todas as mulheres que colaboraram, gentilmente, com seu tempo e se propuseram se abrir comigo sobre suas belezas. Vocês me inspiram. 

A vocês todo meu amor.


Fiz as pazes com o espelho. Deixei que me cuidassem. Reconectei com algumas pessoas que eu andava distante. Estou aprendendo a fazer mosaico. Aprendi alguns acordes no ukulele. Retomei a ioga. Dei um basta em algumas situações incomodas. Troquei a lâmpada do quarto. Dancei com um senhorzinho de 94 anos. Ajudei alguém especial a se encontrar. Quando consigo fugir, vou para o centro de convivência respirar arte. Decorei meu apê. Ressignifiquei algumas questões da minha relação com meus pais. Nadei pelada. Ouvi minha intuição. Fui pela primeira vez num bar dançar. Arrumei os armários. Me posicionei de forma madura. Congelei meus óvulos. Dancei no carnaval de biquíni e arrastão sem vergonha. Arquivei algumas mensagens que não me cabem mais. Viajei num avião teco teco. Escrevi poesias no horário de trabalho. Pintei e cortei o cabelo. Celebrei por celebrar. Me libertei para não ter revolução. Fiz poemas pra uma paixão nova. Comprei ingresso para ir sozinha ao cover da Tina Turner. Aceitei um convite para fazer uma feira em outra cidade. Me permiti desapegar de algumas velhas histórias. Andei sozinha pela rua na chuva. Aprendi a respeitar meus próprios paradoxos. Não me paralisei. Vi Maria Bethânia. Voltei a dar aulas de crochê e de informática. Escolhi não fumar. Fortaleci minha saúde física e mental. Me movimentei no escuro. Priorizei morar em um lugar mais tranquilo e afastado, pra ter qualidade de vida. Elaborei alguns lutos. Comprei um esguicho para molhar a grama do meu quintal. Comecei a fazer aula de forró. Fiz um tratamento de dentes. Viajei com minhas irmãs para visitar parentes. Assisti uma série. Me droguei e ri um pouco. Voltei a malhar. Disse não. Renasci nas águas do mar do Rio Grande do Norte. Errei. Sobrevivi. Ousei desejar.

As revoluções são versos de poesia sem rima, que acontecem todos os dias no coração de uma mulher, desde a hora que despertamos e escolhemos viver, até a hora que aceitamos o adormecer e o encontro com os sonhos. Ela reside ali, no entre. No meio. Todo santo dia é dia de revolucionar.

* Título e foto do texto retirado de um poema da fernanda moreira (@ladrilha) do livro lindo demais "mar é sempre beira pra quem tem medo de fundo" .

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