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Mostrando postagens de junho, 2023

intervalos purpurina

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será que queremos mesmo fantasias eternas? acredito que não. como saborear a especialidade da fantasia se ela se repetisse feito um dia ordinário qualquer? é preciso espaço pro fantasiar-se. entender a preciosidade dos momentos pede que eles sejam flutuantes, feito navegante no mar aberto de possibilidades, amores novos e velhos, em cada porto. chegadas e despedidas. um fantasiar eterno não passa de outra forma de prisão, talvez, colorida, mas, ainda assim, prisão. a certeza da efemeridade de qualquer instante é o que lhe confere a beleza única do inédito, do que foge ao comum a cada um. aquele desconhecido que mora no horizonte além-mar, move os corações navegantes rumo ao que não se pode ver, senão cruzando a linha exata do beijo do céu no mar e novamente e novamente. é possível retornar? nunca como antes. o que foi não será igual na próxima onda. inclusive, desconfio, reside aí o que tem de bonito nesses giros espirais: há sempre algo, aquela pitadinha de inédito, que...

tramas do mel

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  imagem : autor desconhecido  PARTE 1 estava ali absorvida pelo sofá, entregue aos furos da coberta quente, na atmosfera fria daquele dia. não sabia bem o que queria. quem sabe? já nem buscava respostas, contentava-se com as dúvidas, procurava beleza nelas. uma sobre a outra como as roupas que vestia cobrindo o corpo, no fundo, nu. cobria-se despudorada em camadas de nuvens que anunciam um dia de chuva, bonito na tristeza. não se levava a sério. também, não se fazia piada. só existia. sabia-se viva, porque, ouviu, tímido, o músculo bombeando sangue respirando cansado, sem graça. no silêncio, dentro, estava descoberta no vendaval de interrogações circulares do mapa traçado por suas próprias mãos. queria rasgar esses velhos mapas, fazer verão, tirar as roupas, tornar-se o furo de si pra caber todo o universo. mas, seguia ali, absorvida pelo sofá. parada em matéria, no pensamento, etérea. não se sentia livre, tampouco presa. sentia-se apenas nas pausas que fazi...

eterna mente Tita

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tinha um pinguinho aqui, ali... cadê? ouvi seu sussurro nesse início de tarde seus passinhos  no taco tec tec tec os ronquinhos ronc ronc ronc achei seus pelinhos memórias da sua existência aqui nesse plano te vi pela casa, nossa no chão do banheiro me olhando, depois no lado da cama sonhando, fazendo barulhinhos mais tarde, senti você deitada comigo de barriguinha pra cima tranquila de manhã, era em cima da minha cabeça coladinha abrindo os olhinhos, feliz preguiçosa cachorro olhando pra baixo tem que acordar? dia começou, leãozinho eu senti você comigo na sala, debaixo da mesa vigiando tudo me pedindo pão de queijo melância banana maçã ri das suas patinhas, nanos batendo no meu livro pra ganhar carinho recebi um monte de beijinhos, na cara na boca de amor purinho ouvi seu latido rouquinho, alerta pro interfone tocado no vizinho vi seus pulinhos, e mil girinhos de alegria por segundo e seu olhar festa ...

por acaso

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fantasio que você pensa em mim nos pequenos acontecimentos desprovidos de sentido aos corações dos que não têm escuta atenta ao pulsar.  na música que toca aleatória o tempo todo, mas que escolho fingir que, sim, é um indício não dito de que te visito aí também, em algum lugar de você.  no relógio que marca horas e minutos coincidentes, que vejo o tempo todo e que dizem significar que alguém tá pensando na gente naquele exato segundo.  escolho, deliberadamente, que esse alguém é você dentre todos alguéns possíveis, fingindo acreditar nessas superstições bestas, só pra achar que você igualmente pensa em mim.  brinco de decifrar o seu desejo pra saber se dentro dele tem espaço pra mim existir.  inscrevo você na vida, na minha, acreditando que assim me inscrevo também na sua, me esparramando feito rama nos significantes do que antes era nada. fantasio teses, neuroses, roteiros. sou criativa nas alquimias.  que é pra não descolar da história inventa...

céu de outono

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precisei encontrar com as minhas sombras naquela semana última de março e primeira de abril, com a lua crescente e cheia, na ressaca do corpo que vem depois da embriaguez de vida, da euforia de verão-nutrição, minhas folhas secas luzes caídas no chão de terra de outono, me preparando para as colheitas dos cultivos, de um tanto. precisei acolher a minha nudez de luz, em meio ao temporal que se armou no céu caótico, com trovões raios ventania neblina. atrasadas as tais chuvas de março fechando a estação anterior. elas me vieram no outono. anunciando o correr do tempo que não é possível reter e que eu, com apego, queria guardar em um espaço qualquer de mim, meses semanas dias horas minutos segundos. quando entendi que somos todos lugares de alguém, do tempo também, no espelho, no peito. eu vi esse tempo-correr em cada pedrinha com formas diferentes no solo, nas marcas das águas que tanto bateram e furaram, lapidaram-se em vida passada no curso do lajeado dourado, pelo artesão tempo. na ro...

antropofágico

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te conto, em poesia o conto daquela poesia marginal, abissal sem regras com ritmo canto, por significantes (re)significados o que era? o que pode ser tanto faz não cabe norma, burocracias da poesia do conto tanto, fez importa-me mais que leia me leia palavra matéria-prima me ceia o ser escrito por versos inversos sem rima antropofágico alimentando-se de mim letra por letra me conto poesia pra nutrir você.

conjuntinho neon

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estive pensando que eu gosto do conjuntinho que a gente faz.  combinadinho descombinado, sabe?  num estilo meio andrógeno, livre de julgamentos. desajustados. escolhido com (falsa) despretensão, com o propósito dela no resultado e, por isso, cheio de pretensão no caminho do desejo mútuo encontrado em meio aos desencontros dos olhares trocados em um dia qualquer pela cidade viva.  com cor neon e brilhosa que acende na luz azul e vermelha de contingências bonitas, coloridas e alegres. algumas horas misturados em tons pasteis e dourado cerveja e cinzas também...  esse conjuntinho qualquer-roupa-serve e fica bonito, porque tem pele que combina no toque.  porque no espelho tem intimidade na mordida nos lábios, no silêncio que diz muito, no jeito que lambe a seda e embola tudo em conversa fiada profunda na sequência. no jeito que cruza as pernas pra ouvir, sem atravessar sendo atravessado e que dança com roupa pelo no pelo.  eu gosto mesmo desse conju...