desconstruir é caminhar: das pequenas revoluções todo dia
despedidas...
venho de alguns anos de escolhas que exigiram quebras e perdas, muitas! com cada uma delas, um pedaço de mim que deixei pra trás junto de histórias e crenças e ideias e pessoas e mais um tanto de coisas, despindo-me, rasgando as camadas, pra esvaziar.
o vazio.
me vi cara a cara com ele muitos dias desde então. me furei inteira, vi-me peneira, com as sobras de mim, vendo um tanto de mim escorrer pelos furos, deixar ir. precisei de coragem, porque sempre houve medo. muito.
desapegar dói, amputa-nos de alguma forma. leva embora nas águas a imagem familiar do espelho. é isso, não me sobraram muitas coisas conhecidas, na verdade, quase nada. permiti que o estranho -- familiar em algum lugar dentro de mim -- emergisse rompendo muitas barreiras de peles sobrepostas da caminhada até aqui vivida.
entendi que crescer exige energia, paciência, coragem, força e vontade, um certo comprometimento com o desapego da tal roupa que não cabe mais, como diz a canção do Belchior, o que decerto, traz perdas, que é, em última instância, o preço pago pra crescer, pro novo vir e a gira girar.
quando o espaço fica pequeno a gente tantas vezes se comprime pra caber, sufoca-se, desconfigura-se... deforma-se numa tentativa desesperada de ser amada pra não estar só, se perde de si, com medo de crescer. dá medo se colocar responsável pela sua vida, suas escolhas, entender-se sozinho, em algum nível, no existir, compreender que isso é dos custos de viver e bancar tudo isso é assustador...
o desamparo.
porém, optei me encontrar com as sombras, de maneira lúcida e consciente e fui surpreendida com o poder desse encontro. eu faço a passagem desse ano, com uma bagagem mais vazia, atravesso pra outra margem, quebrada em cacos espalhados no chão, onde não sobrou pedra sobre pedra das estruturas que me amparavam, ainda que ilusoriamente, até aqui.
agora estou fragmentos.
foi um ano que compreendi alguns dos meus lutos, meu processo. muitos passinhos pra frente, outros tantos pra trás e alguns pros lados, rotas alteradas, (in)certezas quebradas, velhos mapas queimados e caminhos desaprendidos.
porque, precisei de coragem demais pra me descobrir frágil, vulnerável, não o contrário, forte, como seria o clichê nesse texto. essa foi a maior beleza: permitir que a fortaleza que me cercava se transformasse em destroços depois da passagem de furacões, que desabasse (quase) tudo.
sobrevivi.
com furos, muitos, porém, com novas tramas sustentando-os e o vazio, antes, desconhecido, agora, um bichinho nomeado, importante pro espaço pro novo fluir todo dia. tipo aquele monstrinho que vive às sombras, no armário ou debaixo da cama, mas que quando a gente acende a luz, perde um pouco do medo, porque consegue dar contornos.
amanheci-me nos primeiros raios solares depois de noites longas e escuras, algumas com lua cheia outras nova. o breu. onde mais vi, veja bem, não onde mais olhei, mas onde mais (ou)vi-me.
sei que tem muita água pela frente e sempre haverá de ter -- ufa -- no caminho dos leitos rumo ao oceano, mas dá orgulho olhar pra trás e perceber que, ao inverso do que pensei, eu me movimentei numa espiral cheia de belezas por um percurso, que nem sempre foi fácil e óbvio, a maioria das vezes inclusive, não o foi.
não sou mais a mesma daniela de antes a cada segundo, é que nunca se sai o mesmo depois de um novo mergulho no rio, como disse o filósofo. a ousadia de ser diferente é desagrado pra muitos que sempre me apreciaram por algo que nunca fui de verdade, pelos sins mais sonoros e palatáveis que os nãos.
então, boto-me desarmada frente ao mundo, rasgada, aos destroços, vulnerável -- como a ostra que produz pérolas -- pra oferecer o que tenho de melhor depois de tantos lutos: a daniela depois dos furos, os restos: a pérola é essa, a peneira. e sei que muitos novos ciclos como esse virão ainda pela frente. porém, por ora, é tempo de arrumar a bagunça, limpar as bases e começar a construção de uma nova casa que seja mais coerente com o que eu quero de mim e da vida.
o depois, é outra história, são mais páginas desse livro que escrevo (e me inscrevo) desde que nesse planeta azulzinho cheguei. quero-me agora novo lar. vem bonito, 2024!
Incrível o que relator!
ResponderExcluirAmo mais que gosto de ler o que escreve, é de uma sinceridade e uma facilidade de se expressar que me encanta.
Beijos, Suely Michel
Maravilhoso o seu relato. O seu amadurecimento de fazer uma análise de você mesma de uma maneira tão sincera, tão transparente, tão profunda. Parabéns Dani!
ResponderExcluirParabéns, amiga! Tenho muito orgulho da sua trajetória. Que alegria é ter você por perto, trazendo poesia pra nossa vida! Beijo grande
ResponderExcluirEncantada com mais esse texto impecável. E nesse, especialmente, me identifiquei pelo que tenho passado nesse ano, principalmente nos últimos três meses. Parabéns!
ResponderExcluirMichelini
Belíssima e assertiva reflexão, senti como se fosse eu, em alguns trechos.
ResponderExcluirParabéns !!
Dani, que maravilhoso! Não sei o que dizer, mas, com certeza estou orgulhosa de ver a sua maturidade.
ResponderExcluirBeijos te amo!
💚
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