o triunfo do miojo: são tempos difíceis para os sonhadores



O mundo de hoje, tal como posto, não tem espaço para os idealistas. Para os que rodeiam. Que circulam. Que se interessam por ideias e, sobretudo, pelas pessoas por trás das ideias.

O mundo de hoje é do fazer e acontecer. Do rápido. Da solução sem problematização. O mundo de hoje não abre espaço para pensar por pensar. Para o questionar-despertar.

O mundo de hoje quer flores sem ciclos. Quer florescer sem experimentar o experenciar processos. É o mundo do instantâneo, das soluções rápidas e práticas. Do não aprofundamento.

O mundo de hoje é do mergulho no raso. É do poso no limite imposto, do processamento que não constrói e nem desconstrói, que reclama números e resultados. Que domestica o pensar e agir pela lógica do lucro.

O mundo de hoje é do caminho mais rápido. Da subida mais fácil.

Nem partida, nem destino. Nos caminhos fáceis e curtos, não há espaço para falta e, portanto, pro desejo. Só demandas! E respostas e demandas, até a exaustão.

No mundo de hoje não cabem filosofias, boas trocas sem um resultado necessário. É rolo compressor. Não serve para para os sonhadores e poetas. 

O mundo de hoje não quer questionadores, eles são pedantes. O mundo de hoje não quer rebeldes, eles não dão lucro a curto prazo. 

Quer mesmo eliminar quem é diferente do que se espera. Cruelmente. Coloca à margem quem não tem o mesmo ideal de sonho imposto por uma cultura nociva, segregadora.

O mundo de hoje não entende os românticos. Não tem mar para esses navegantes dos porquês, do complexo, das sensibilidades. Desajustados! Desassossegados...

O mundo de hoje é de uma camada só, simplista, achatado. Com soluções mágicas, é um saquinho de macarrão instantâneo.

O mundo de hoje mede o tempo pelo que se oferece em troca por ele. Não existe gratuidade. Não existe espaço para criatividade genuína, para existências autênticas, para aquelas pessoas que não enxergam a vida como uma simples ligação entre o ponto A e o ponto B por uma reta linear e contínua.

É triste isso. É cheio demais. Não tem verdade. Não é orgânico. É pouco ou nada humano.

A terra não se opera pelas vontades humanas. A volta em torno de si mesma dura 24h, em torno do sol, 365 dias. As estações são 4 e acontecem no tempo do organismo vivo que habitamos e que somos. 

Semear, cultivar, crescer, florescer, dar frutos, secar, cair, morrer, renascer... Ciclos. Não existe função de acelerar ou desacelerar o tempo das ordens naturais que nos regem.

O tempo hoje massacra a contemplação. O ócio. O mundo hoje é para robôs programados para servir ao sistema e nada mais.

Os idealistas, românticos, circulares, rebeldes, questionadores, sonhadores, são marginais para a sociedade que não lhes aceita como dignos de fazer parte da grande festa do capitalismo tardio (ufa!). 

E o rolo compressor passa sem piedade por cima daqueles que ousam fazer diferente. Ainda bem que eles ainda existem, resistem. Marginais, no meio de nós, algumas vezes disfarçados, como tática de sobrevivência, fazendo a terra estremecer com ideias.

Tudo começa com um sonho e uma ideia. 

"São tempos difíceis para os sonhadores"*.

Prefiro dançar a valsa do viver no meu tempo e no meu ritmo, nele tem espaço para as pequenas alegrias - que são imensas.


(escrito em qualquer tempo passado de 2021)

*O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001)

Comentários

  1. Olha ela toda baumanzinhazinha ❤️

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  2. Mudaria o título para "O triunfo do miojo". Excelente!

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  3. Incrível e excelente para refletir.

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  4. Que reflexão profunda, como te disse, resumiu a "nossa geração" com essas palavras: O mundo de hoje quer flores sem ciclos. Quer florescer sem experimentar o experenciar processos. É o mundo do instantâneo, das soluções rápidas e práticas. Do não aprofundamento.

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    1. mas, a gente resiste, meu querido. gente é feita pra brilhar em vida, no passinho da valsa do tempo real <3

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  5. Sensacional seu texto. Tempos difíceis para nós sonhadores. Parece que estamos fazendo algo errado, quando não seguimos a maioria.

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  6. Que espetáculo! Que dom... que profundo...

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  7. Nunca houve um tempo fácil para sonhadores
    Mas os sonhos nunca deixaram de ser sonhados
    Nunca houve um tempo q nos levasse ao ideal
    E ele sempre esteve ali, inabalável
    Nunca houve um tempo para se cruzar a margem, mas ela estava ali, para os marginalizados
    Há sim um tempo do confronto com o absurdo.
    O tempo do se entender e entender o sonho, o ideal é a margem
    Entender cartesianamente onde estamos e a distância dimensional
    A medida dessa distância é a nossa frustração

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    1. obrigada por se deixar um pouco aqui cmg, desconhecido (:

      "O tempo do se entender e entender o sonho, o ideal é a margem
      Entender cartesianamente onde estamos e a distância dimensional
      A medida dessa distância é a nossa frustração"

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  8. 👏👏👏❤️❤️❤️

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