folhetins foliões


guardei numa caixinha tudo que sobrou de nós. 

acordei decidida a te velar ali, naquele caixãozinho de memórias. coube tudo. 

parecia muita coisa, antes. hoje, percebi que muito pouco resistiu ao tempo, tempo

transformei migalhas em um grande banquete.

te fiz um castelo, te coloquei num trono e te coroei Rei dos meus dias. te adorei. tudinho eu com meu desejo de-lírios

escolhi alguns, pro funeral da nossa história. é que, você não merecia o reino bonito que criei pra gente

na verdade, você não tinha afeto e coragem e força e vontade suficientes pra governá-lo comigo. nunca teve. 

percebi isso outro dia desses, andando por algumas ruas que ainda tem glitter no chão, espelhos fracionados em pozinhos cintilantes criados

eu quis, ser pra você, kiss ser star, brilhar brilhar luz viva e pulsante e colorida em ressonâncias de amores,

você não quis-me

feito novelo de lã nunca usada pra tecer encontros, você me enrolou. deixou a ponta solta sempre

no vela. entende?

nunca a guardou junto do enlace. só pra ver minha luz de longe vibrando paixão por você, te fazendo reluzir, por reflexo 

falou de passarinhos livres pra voar, de ninhos possíveis em cada pouso novo, de polinização de amores descolonizados, horizontais na horizontal 

essas mentiras sinceras, com o enredo folião de folhetins, 

me enredou me enredei 

criou gaiola meu coração passarinho,

andou preso muito tempo, o coitadinho. por opção, claro

porque quando arriscou um passo a frente, viu que a porta da gaiola esteve aberta todo esse tempo. sempre esteve

tola passarinha eu que não passa paixão amarrotada, com dobras. passaria a vapor todo esse romance, só pra ver virar ar, etéreo 

ou achatar-se em proporções

desdobrá-lo em muitos. até se abrir em possibilidades de novos encontros no espaço dos desencontros, abertos

não depende de mim sua vontade. nem pretendo mais tê-la, quero mesmo a minha

gulosa, tem fome de tudo. é larga. um tipo de vontade de gente certa, aberta, como a canção do Erasmo que você não sabia cantar nem dançar. 

por isso, guardei tudinho, letra, cartas, músicas, versos, fotos, isqueiros, momentos 

e um pedaço do carnaval, tudo no caixotinho de madeira 12,5 cm por 9 cm

pequenininho. 

como o afeto que você me ofertou algum dia, tipo os rastros deixados por João e Maria no chão do Floresta pra não se perderem, 

você disse que me ensinaria a voltar pra mim, em tom professoral. ensinou nada. se derramou em mim até transbordar mágoas, 

prometi usar pra regar o solo onde te enterrei, ver germinar novo amor do adubo de você em mim na terra molhada. é o que fica

tudo certo pro seu velório, tudo certo

como dois e dois são cinco, na voz de Gal.

Comentários

  1. Maravilhosa... fantástico ver como consegue organizar as palavras tão lindamente

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  2. Que tudo!
    Me encanta como expressa seus sentimentos extraordinariamente bem
    SuelyMichel.

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