orações das palavras avessas


 

toda vez que escrevo, coloco-me do avesso nas palavras.

a cada letrinha, um pouco do que carrego por dentro é exposto e apresentado à vida.

é um ato de coragem escrever com as vísceras. estive pensando nisso. colocar-se desnude no texto do existir, entregue

antes de tudo, um ato de honestidade com a história, em matéria pura, que a gente carrega no corpo desde que foi respirado pela vida.

as palavras no lado certo, são mente. e olha, ela, muitas vezes, mente. quando tomam formas no ato de escrever, entregam-se desnudes

porque ganham vida própria e livre árbitro pra dizerem de si. elas tem sangue, pulmões, coração

elas pulsam.

o meu avesso é bailarino rebelde, não me obedece, dança a música que quer, como quer e cria ritmos sintonizados com o coração de cada palavra

tem alma. e pernas e braços e voz.

ora grita, ora sussurra. se agrupa em letrinhas nos acordes do sentir sempre indo sentindo sentido.

derramam-se.

tantas vezes, é esse avesso sanguíneo, que me pega o corpo pelas mãos e me mostra que, a realidade é tão bonita quanto a fantasia.

é como estar em todos os tempos, passado presente futuro, numa só palavra. orações.

muito mais que estar

presente.

apresenta-me verbos vividos e potenciais. vocabulários que eu nem sonhava conhecer. inventa signos. e me recorda que as palavras são o veneno e a cura.

escrever é pra mim esse avesso corajoso que não briga com a falta e os abismos. não pretende preencher nada, só juntar as letras na sopa de letrinhas da vida.

é uma forma de oferecer a versão mais autêntica possível da daniela, esse nome que me foi dado pro mundo, pra que eu me sinta sujeito (ou objeto de qualquer coisa)

mas, somos muitas por trás da íris castanha indivíduas

e nos apresentamos do avesso pelas palavras, essas que, quando postas no mundo, não retornam ao útero, deixam-se gravadas existências por aí. orações!

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