pra dar nome

 


quis dar nome pro sentir, fiz silêncio pra ouvir, tinha vontades próprias

voz.

não ouvia bem na neblina do ar, precisava do escuro pra ouvir melhor, porque ele não queria ser visto, talvez, sentido

pra onde?

os ruídos atrapalhavam o entender. por mais que eu quisesse, não era suficiente, o nome...

por que preciso?

contornar, dar bordas, pra que possa transbordar

seguir.

por isso preciso ouvir, seu nome, no escuro. onde os sentidos são chamados de outras formas.

eu não sei se ele estava pronto, esse sentir, pra ser sentimento... 

faltava-me vocabulário – tantas vezes

eu preciso inventar palavras para as formas novas que me tomam o coração de mim.

mas, como?

um dicionário todo de afetos que atravessam

vou escrever um dia, com neologismos bonitos.

para tanto, preciso de coragem pra me permitir viver sem apego aos enredos e narrativas.

só sentir

estar no momento, sem julgamentos ou racionalizações.

colocar-me como plateia da dança que fazem no meu músculo entre os dois pulmões

que me trocam com a vida.

esse sentir, por exemplo, se parece com o barulho do mar que as conchas fazem quando as aproximamos do ouvido

do músculo.

armazena em seu interior um labirinto espiral inteiro como a existência, essa caixa de ressonância,

que de tão perdido, engana.

fantasia a realidade com lentes apaixonadas os sons dos vários ecos habitantes da falta,

reverberações do que foi.

esse sentir, que capta o não dito, sem registro. os restos de sons difusos

refletidos nas paredes de dentro.

reverberações que só encontram a paz, no silêncio absoluto.

esse sentir imaturo com voz de concha do mar, não obedece

desejos, porquanto os funda

não estamos prontos pra nos entendermos, não ainda.

sem pressa, me boto observadora de mim.

nota: criar um dicionário dos afetos que me atravessam e se deixam e me levam. como as ondas que trazem um pouco do mar aberto pra beira e levam um pouco da beira pra dentro de si.


Comentários

Postar um comentário

se troca comigo :)

Postagens mais visitadas deste blog

"dentro de mim é revolução"

desconstruir é caminhar: das pequenas revoluções todo dia

orações das palavras avessas