o peso de ser


olhei pra possa d’água no chão de asfalto e vi o céu sob os meus pés. 

naquele momento, senti que pisava no céu, desafiando a ciência do tangível, ali, com os pés no chão eu flutuava no céu de agosto, perdida em meus rios.

me senti, naquele instante, recorte de vida, parte de um todo sem barreiras e fronteiras, sem contornos. 

não pertencia ao espaço tempo como posto, era outra dimensão possível do existir. 

não era mais eu, meu corpo restrito a um plano, mas era eu no todo, diluída nas águas de dores e alegrias que mergulhei e emergi, sempre diferente, até ali. 

o céu de abril, tão bonito e azul, me trouxe dores, o céu de agosto, onde agora piso, igualmente. 

interrogo-me num pranto fundo, baixinho, acalentado por toda a vida que acontece e resiste, desde antes, muito antes, até as que vem agora e renascem, em tudo que respira e que é carbono, essas partículas todas que somos, poeiras de estrela, purpurinas, 

interrogo-me, sendo tudo isso e nada, sobre o que fazer das águas turbulentas que não represo. 

converso, ocupando dois lugares ao mesmo tempo: céu e terra, sentido o ar tocar a pele e me lembrar que existo, não sou a minha sombra, mas sou ela e eu ao mesmo tempo. 

converso com o tempo. 

peço que ele tenha gentileza com o viver corrido, que passa sem ver, segundos minutos horas anos! calma, tempo, lapida devagar a existência rara. 

não brigo, pelo contrário, peço colo a ele e um pouco de sua sapiência, pra aceitar as pontas irregulares de poder fazer parte de todo universo, pisar céu e terra mais vezes. 

as nuvens passam dançarinas sob meus pés, o sol manda raios luminosos ali, no chão de asfalto cinza, que de repente, é espelho na água,

me vejo. 

vejo quanto meu conjunto de infinitos é limitado pra tudo que eu queria viver, deixar e receber. 

vejo ali, sob meus pés sonhadores ancorados, o preço de amar e dos encontros e do afetar-se. 

todas as histórias que me permiti experienciar pra chegar exatamente nesse ponto, lugar nenhum, uma só com tudo, poeira...

pó. de onde viemos, pra onde iremos e, quem sabe, retornaremos. 

a finitude conhecida pela consciência limitada, se apresenta ali pra mim, não com rudeza, mas, com sutileza de sopro que não se pode prender. 

começos, fins, começos, fins, começos, fins... e os meios, são eles o que somos.

pagarei o preço da dor de cada fim, só pra ter a alegria dos recomeços possíveis e a certeza do amor que me consenti vivenciar por cada partícula purpurina que abracei e dei entrada pra morada em mim. 

pontas ambivalentes. apostas. custos. a insustentável leveza do ser. 

Comentários

  1. "converso, ocupando dois lugares ao mesmo tempo: céu e terra, sentido o ar tocar a pele e me lembrar que existo, não sou a minha sombra, mas sou ela e eu ao mesmo tempo." - Belíssimo!

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