caminhos espirais


de quantos erros somos constituídos? 

essa pergunta me veio à mente, como fantasma sussurrando algo a ser realizado, numa sexta-feira sem fim. 

deixei me tomar, me enevoar e fluir os pensamentos, sem intervir.

pois bem. 

pensei que somos um bocadinho de muitas decisões, inclusive, algumas que não foram nossas, mas que nos marcarão por todo caminhar. 

e sabemos daquela velha sentença: pra cada escolha uma renúncia.

encruzilhadas... apostas.

quantas renúncias nos tornaram quem somos hoje e quem seremos no próximo minuto?

me peguei pensando nas reflexões de Milan Kundera acerca da insustentável leveza do ser e sobre a qualidade positiva e negativa do peso e da leveza: essas renúncias e erros que nos constituem, pesam ou, ao contrário, nos tornam mais leves? e os supostos acertos?

com nosso conjunto de escolhas, uma infinidade de "e se" remanescem do que nunca foi e nunca será. 

porque, nas encruzilhadas, só é possível um sentido a ser tomado. ainda não nos é possível, materialmente, ocupar mais de um lugar na existência. talvez, nos pensamentos, corações, não na existência física. 

cada "e se" deixado pra trás, é o contorno da massa disfórmica do emaranhado de escolhas que é a nossa existência rumo ao fim. 

cada erro entra na conta do escolhido e do não escolhido, assim como os acertos.

porém, são um conjunto limitado, vez que já determinados no instante agora, que foi o antes e que já o é o depois. 

os "e se", por outro lado, são um conjunto, desconfio, praticamente infinito de possibilidades de serem combinadas para uma só existência humana nesse tempo espaço. sem bordas.

contudo, são também, a contra-senso, transbordamentos da realidade que não se altera, aquela já desenhada pelo existir, que não permite releituras factíveis de "e se" praquelas escolhas feitas e operantes de efeitos concretos. 

"e se" não cabem no tempo futuro, são prisioneiros de um passado nunca realizado, quase como aquele tempo verbal com o qual me implico, futuro do pretérito. 

mas, não são a mesma coisa, visto que há no tempo verbal uma ação anterior ao "e se" que impede o acontecimento que poderia e não pôde. entretanto, me parece restar, ainda, aberto no futuro possível. 

os "e se" são fatalmente prisioneiros de um futuro potencial nunca realizado e que nunca mais se realizará. 

não tem jeito de existir sem dialética e consenso com o tempo. não o cronológico, o tempo de respirar a terra e de ser respirado por ela: de viver. 

viver é verbo pra ser conjugado no presente, por sua própria natureza. 

veja bem, se você o conjuga no passado ou no futuro, esvazia-o de significante, já que só se vive, efetivamente, o agora. o que foi é história, memórias e recordações. o que vem, especulação, sonhos e anseios. 

viver não concorda verbalmente, portanto, com "e se", senão pra fins de elaboração de si.

voltemos às escolhas que nos constituem... 

somos, assim, uma espiral de erros e acertos, que não se repetem da mesma forma exata, já que o próximo passo, seja qual for, como diz Chico Science, já não é mais o mesmo lugar. 

e assim, infinitamente dentro do finito da vida, esse substantivo abstrato e misterioso, atravessado por "e se", até a outra ponta da vida, rumo às perdas que nos transformam todo dia em passado, presente e futuro num mesmo instante.

essas perdas que dão sentido à espiral. 

é que, não se ganha nada sem se deixar perder algo pelo caminho. 

então, desconfio que o peso e a leveza residem juntos em cada escolha feita. não de maneira maniqueísta, mas, sim, ambivalente. 

os espaços da espiral permitem a oxigenação dentro dos contornos não lineares, circulares que se movimentam num fluxo que tem peso nas linhas tecidas pelas escolhas, mas essas mesmas escolhas nos tornam leves, já que nos permitem perder e criar esses espaços. 

somos um grande emaranhado delas. 

agradeço a todas as minhas apostas que me permitem seguir desejante e verbo conjugado em tempos distintos  a cada passo dado.

quanto aos "e se", trazem algo do gozo, talvez. não sei. sei que se derramam em nós como prazer que dói e não dói, de roteiros e enredos e fantasias, que nos perpassam feito flecha de quereres e não quereres. 

espirais caminhos cada dia a mais, um a menos, rumo ao fim imprevisto do existir.

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