contornos e bordas
estive revisitando nossa história.
passeei pelas esquinas dos acasos e pelas avenidas contornos da mistura boa da gente em nós.
sentei numa das praças circuito do gozo e procurei entender como eu tinha chegado ali, naquele giro volta.
olhei pro céu e tava azul, da cor daqueles dias quentes passados
na chama mais quente tem ternura e tem malícia e tem som de bolero cantado em espanhol e brasilidade mineira no lagoinha.
tem barulho no coração de tamborim e caixas e trompetes e purpurina em cada parte do céu
que a gente criou juntos,
um dia, pra viver num tempo diferente daquele permitido no
recarnaval
dizia o bilhete com a minha caligrafia de ébria equilibrista na corda bamba do vazio oscilante.
rebeldes, inventamos o possível dentro do impossível.
um mundo sem regras chatas, na verdade, uma só: honestidade. compromisso com-sentir. sentido. fantasias...
minha com lantejoulas na sua com farrapos na minha, na nossa, inventada
do genuíno que é se encontrar no sorriso bobo do outro, naquele olhar risonho que, perdido, busca ver e encontra,
abraço no outro.
nesse caminhar pela nossa cidade em outros universos do tempo espaço
atravessei algumas avenidas com seu nome inscrito, com lambes pregados pelo bairro, mais uma vez e, então
desci as velhas escadas pra estação do trem estrangeiro, ali no baixo centro.
partiu por volta das 21h, no dia bonito de Iemanjá, deixando falta na outra falta.
acredito que de alguma forma me inscrevi também em você.
naquele dia que eu decidi ser inteira, quer dizer, faltante.
acho que foi nesse dia que criei espaço pra movimentar o tal trem pelas ferrovias caminhos e me inscrever em todas as suas partes,
ainda que houvesse recusa de pedaços de você.
era isso, eu queria os restos.
aqueles seus pedaços que ficam no chão logo depois que o espelho do trem se quebra, o que fica depois de tudo
e era também o que eu queria te ofertar:
meus restos entre os abismos.
e de novo pegar o trem, muito provavelmente em outras estações, com outros destinos – nem mais belos, nem menos belos –
diferentes, apenas.
porque, nunca o instante seguinte é igual ao passado.
sempre rumo às perdas. às pequenas mortes que permeiam cada renascer do dia,
tantas vezes, num mesmo instante.
talvez, seja essa a prova do encantamento que você colocou em mim. ou, que eu mesma me vesti (?)
as incertezas na medida suficiente do espaço pra dançarem livres os tantos quereres
– não esquece –
entre uma ponta e outra do intervalo desencontros dentro dos encontros.
nessa cidade que a gente construiu, somos menos maniqueístas, existem jardins infinitos de ambivalências.
revisitando essa nossa história, percebi que, eu queria me deixar afetar. e só.
era isso, me afetar em cada poro, porque tinha espaço na viagem pra minha voz. e isso, isso é muito, meu querido. é muito.
passeei. desenhando mapas docemente cartografados pelas infinitas mãos do meu coração
errante e desejante.
em cada traço passo, uma culpa a menos, uma vida a mais, uma nova borda. outras perdas, contornos tão certos, quanto dois e dois são três.
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