tramas do mel

 

imagem : autor desconhecido 


PARTE 1

estava ali absorvida pelo sofá, entregue aos furos da coberta quente, na atmosfera fria daquele dia. não sabia bem o que queria. quem sabe?

já nem buscava respostas, contentava-se com as dúvidas, procurava beleza nelas. uma sobre a outra como as roupas que vestia cobrindo o corpo, no fundo, nu. cobria-se despudorada em camadas de nuvens que anunciam um dia de chuva, bonito na tristeza.

não se levava a sério. também, não se fazia piada. só existia. sabia-se viva, porque, ouviu, tímido, o músculo bombeando sangue respirando cansado, sem graça.

no silêncio, dentro, estava descoberta no vendaval de interrogações circulares do mapa traçado por suas próprias mãos. queria rasgar esses velhos mapas, fazer verão, tirar as roupas, tornar-se o furo de si pra caber todo o universo.

mas, seguia ali, absorvida pelo sofá. parada em matéria, no pensamento, etérea. não se sentia livre, tampouco presa. sentia-se apenas nas pausas que fazia pra ouvir o canto do ar que lhe respirava a vida lá fora.

ouviu gatilhos disparados. silêncio. um cigarro.

tinha prometido estar sem eles, como tantas outras promessas esvaziadas de sentido, só pra sentir o não sentido, o não dito, o gosto amargo daquele dia tragado na boca que não volta mais.

pensou que queria alguém que lhe dissesse o que querer, já que de si, não sabia. não encontrou respostas, naquele dia, nos astros, no acaso, na linguagem, em oráculos, rituais secretos. nada.

era só ela, no sofá, absorvida pelo nada travestido de dúvidas, enganando-lhe o desejo, a culpa.

procurava nomes. sabia que nomear era como contornar o que não tinha forma visível, pra pegar pelas mãos dos olhos e começar novos mapas. sabia... o vocabulário, contudo, faltava-lhe. como todo o buraco aberto, faltava-lhe.

quantas faltas poderia colecionar na caixinha do vazio?

sentia-se peneira com mais furos na realidade simulada do que seria recomendável pra viver.

 

PARTE 2

pensou naquele instante sublime de beleza na leveza do ser que é tão pesado, que a peneira era na verdade o mecanismo de existir sustentando-se. as tramas...

aquelas construídas por cada vivência até ali, em torno do buraco uníssono, abissal, era a rede que lhe possibilitava o movimento pela vida. sua história. gostava de contá-las desde pequena, também de ouvi-las.

era justamente na construção dos laços entre os furos de si, que morava a leveza do que era possível viver de novo todo dia e todo dia.

a magia habitava exatamente naquele estranho emaranhado de faltas da caixinha do seu vazio, que carregava, sabe-se, pelas ruas das experiências que se permitia.

por sentir-se peneira com muitos furos, lhe era possível prosseguir, não o contrário.

a vida não pode ser-se sem dinâmica e movimento, transmutações em tantas outras formas, tantos outros infinitos, curtos e longos, entre os espaços imaginados de números significantes, não apenas signos ou significados. sobretudo, significantes.

o desamparo, era, portanto, sinal da existência potencial do amparo na próxima esquina desconhecida, esperando ser descoberta. o que poderia vir dali?  antes, o prazer do encontro ou quiçá do desencontro, seja como for, o prazer residente nos mistérios.

mas, veja bem, sem as tramas formadas pelos novos furos de faltas do grande vazio, não haveria sustentação do estar-se no mundo.  tal como na arquitetura das abelhas, uma colmeia organizada em favos e estes, por sua vez, compostos por alvéolos.

essas células furadas, que nos espelham a falta e a castração, é justamente onde existe espaço para se produzir o mel, nas paredes leves, mas, firmes, pela estrutura da trama.

estava ali no sofá, ainda, junto aos furos da coberta, junto à peneira de si, sublimando uma dor típica do ser humano, a dor pura e simples do existir sendo quem se é.

um adorável pacotinho de histórias tramadas pelas faltas permissivas do encontro com o acaso. naquele momento breve, foi capaz de abraçar seu desamparo.

extraiu beleza dos enganos, a beleza mais bonita, a figura pleonasmo na expressão de si própria, presente no exato instante que antecede o não do desconhecido, ambivalente, vez que existente em algum lugar dentro do possível.

sublimou-se em linguagem, palavras, acrescentadas ao seu vocabulário do ser-se pela força do encontro com seu próprio acaso, que se não se subsumissem ao seu sentir daquele momento, nada seriam além de símbolos esvaziados de sentido.

porém, agora, eram preciosas palavras preenchidas de sentimentos diferentes de todas as palavras pronunciadas por outros. eram suas palavras, gestadas nos furos de si, vertendo-se em mel. em histórias próprias, no seu reflexo dissolvido no espelho.

existia sim, não havia como não existir. ainda que dissolvida em perguntas. o mel era a prova da realidade fantástica que habita a fantasia real, sua produção criativa e mais autêntica, o contorno. impossível falar em materialidade, sem antes, reconhecer a imaterialidade que lhe reside.

a única maneira de reconhecer algo é a condição de já conhecê-lo antes. na negativa encontra-se a ponta outra da possibilidade e no caminho entre uma e outra, infinitas outras possibilidades.  era ali, dessa maneira vista, a mais possível retratação do humano estruturado nas ambivalências.

no caos da tempestade de raios-interrogações, surgiu a claridade que lhe permitiu sentir o barulho seguinte dos trovões e, na sequência, o silêncio apaziguador de que não há respostas, apenas dúvidas, não, contudo, sem certa lógica.

escolheu dançar na chuva que caía, só pra ver depois as luzes bonitas que pintam a tela do dia após as tempestades, com toda sorte de contrastes.

Comentários

  1. mas, seguia ali, absorvida pelo sofá. parada em matéria, no pensamento, etérea. não se sentia livre, tampouco presa. sentia-se apenas nas pausas que fazia pra ouvir o canto do ar que lhe respirava a vida lá fora.

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  2. porém, agora, eram preciosas palavras preenchidas de sentimentos diferentes de todas as palavras pronunciadas por outros. eram suas palavras, gestadas nos furos de si, vertendo-se em mel. em histórias próprias, no seu reflexo dissolvido no espelho.

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  3. Que bonito isso! Se rasgar, com coragem, aos olhos dos outros. Bancar o preço da exposição, pelo prazer de compartilhar o que se vive, no mais íntimo de si, humanamente. Obrigada!

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  4. Sem palavras!👏👏👏👏👏👏

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