céu de outono




precisei encontrar com as minhas sombras naquela semana última de março e primeira de abril, com a lua crescente e cheia, na ressaca do corpo que vem depois da embriaguez de vida, da euforia de verão-nutrição, minhas folhas secas luzes caídas no chão de terra de outono, me preparando para as colheitas dos cultivos, de um tanto.

precisei acolher a minha nudez de luz, em meio ao temporal que se armou no céu caótico, com trovões raios ventania neblina.

atrasadas as tais chuvas de março fechando a estação anterior.

elas me vieram no outono.

anunciando o correr do tempo que não é possível reter e que eu, com apego, queria guardar em um espaço qualquer de mim, meses semanas dias horas minutos segundos.

quando entendi que somos todos lugares de alguém, do tempo também, no espelho, no peito.

eu vi esse tempo-correr em cada pedrinha com formas diferentes no solo, nas marcas das águas que tanto bateram e furaram, lapidaram-se em vida passada no curso do lajeado dourado, pelo artesão tempo. na rocha sedimentada. na lua crescente no ápice no céu cheia depois minguando outra vez.

expansão contração pulsão.

no instante-segundo que as folhas dançaram com o beijo da brisa e que a nuvem brincou de cobrir e descobrir o sol, flutuantes sem destino certo, como o desejo, só indo.

me recordaram do tempo que rege a vida, não do tempo invenção humana controle relógio.

as sombras de outono meio frio meio quente, me abraçaram sem folhas-luz, me sentaram à mesa do tempo p'rum café amargo com a finitude, a falta, o medo, a saudade melancólica do que vivi (e do que não vivi - é possível?), o desamparo...

a fome, os anseios do coração... o caminho de volta pra mim.

foi assim, exposta ao tempo, entregue a total falta de controle de tudo, nesse encontro com minhas sombras que eu me entendi, no meio de todas essas gotas grossas de chuvas-sentimentos, com os meus limites que há tempos gritavam por mim.

naquela semana sem fim do terceiro quarto mês de doze inventados pra marcar vidas idades, me reconheci completa pela ausência, sem folhas na minha árvore, que balançou aos sopros vendavais de vida, que envergou perdeu galho, mas ficou de pé, agarrada no que é real: o que sobra.

compreendi, nesses dias de vários azuis de março abril o significado de por um triz.


Comentários

  1. Como é incrível a abordagem de assuntos em versos e prosas. Amei mais que gostei.

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  2. eu fico tão feliz que faça sentido verso e prosa por aí, desconhecido <3

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