palha assada de seriedade

"era só eu ali divertida e zombeira. a imagem refletida no espelho que me fez rir de mim, da vida. da ilusão de seriedade e normalidade e de poderzinho e controlezinho... de nada. desse monte de restos que a gente é feito, nunca um todo uníssono. esse monte de fantasias que a gente cria pra não enlouquecer de lucidez extrema. eu ri de mim, toda coberta, espelhada no eu das ambivalências dazumzilhão de danielas que me coabitam desarmonicamente. eu ri -- com deboche. às vezes, me sou piada. quase sempre, bem humorada."

pra que nos levarmos tão a sério? 

a vida tá correndo solta a cada pedaço de horinha, em descontrole, aleatória aos ternos e reuniões e máscaras e poderes e títulos e convenções. 

cada dia vivido ou não vivido é um a menos. no final das contas a gente tá sempre perdendo. melhor mesmo, portanto, é abraçar a glória de não ser vencedor – a não ser em pequenas partes fragmentadas. 

viver como quem se vive só vivendo, sem tanta seriedade na interpretação do papel de si, dos outros. encarando a peça que ensaiamos todos os dias que nos respira a vida, com menos formalidades e burocracias e desperdícios de afetos. 

buscar mesmo a alegria que existe na tristeza que permite saber-se alegria, a alegria, pelas lentes do contraste, sempre ambivalentes. todo mundo perdendo-se um bocadinho no caminho pra se encontrar. entende? 

é na perda de tudo de cada um de todo mundo que residem os intervalos possíveis para os encontros dentro dos desencontros, esses lugares de restos e de faltas. 

aceitar que o controle mora dentro do descontrole, quer dizer, não existe senão como ilusão pra bancar existir no espaço de nada saber. 

aprender a confiar nesse desconhecer é habilidade das mais complexas, que, penso eu, exige não nos levarmos tão a sério. 

é libertar dor e revolucionário assumirmo-nos, não só malabaristas mágicos trapezistas contorcionistas, mas, sobretudo, palhaços no grande circo que é estar vivo. lembra? 

a vida tá correndo caprichosa e divertida por aí, indiferente da gente... pra que ser tão formal? 


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